Reportagens

Restingas tomadas por plantas exóticas resistem menos a efeitos da crise climática

Uma proteção natural contra tempestades e subida do mar, essas formações precisam de atenção urgente do poder público e da população

Aldem Bourscheit·
4 de dezembro de 2023

Plantas exóticas reduzem a resistência de restingas aos efeitos da crise do clima, ameaçando a biodiversidade, a população e causando prejuízos econômicos. Faltam políticas públicas para controlar a disseminação dessas espécies, vindas do mundo todo.

A Praia Mole é uma das mais badaladas na ilha de Florianópolis, a capital catarinense. Ladeado pela mata pontuada de casas e pousadas, o mar agitado atrai uma legião de surfistas e turistas que lotam bares e festas embaladas por música eletrônica. 

Encravado entre o Atlântico e a turva Lagoa da Conceição, esse cenário idílico tem população e visitantes multiplicados no potente verão tropical. Afoito por sol, mar e diversão, tal público passa ao largo da crescente tomada das restingas locais por plantas exóticas.

Fixadoras de dunas e mangues e mesmo protegidas na legislação federal, as restingas são um dos ecossistemas mais ameaçados do Brasil. Desaparecem sob o descontrole da urbanização, especulação imobiliária, turismo praiano e da silenciosa contaminação biológica. 

Planta exótica invasora se espalhando em praia no Sul do país. Foto: Instituto Hórus / Divulgação.

Análises de ongs mostram a redução contínua das restingas. Um levantamento lista que, em 2022, seus maiores destruidores foram municípios no Ceará, Santa Catarina, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Piauí e Rio Grande do Norte.

Além de dar cabo da biodiversidade nessas formações, distribuídas no litoral da Mata Atlântica ao Pampa, a infestação por plantas não nativas reduz a capacidade das restingas resistirem a temporais, ressacas e à elevação do nível do mar, tudo turbinado pela crise do clima. 

A restinga, sobretudo as dunas frontais, a primeira elevação a partir da praia, protege a costa, casas e pessoas desses eventos extremos, conta Sílvia Ziller, diretora-executiva do Instituto Hórus, ong que lida há duas décadas com políticas e manejo para ambientes invadidos por espécies exóticas.

“À medida que as restingas são convertidas quase que em monoculturas de plantas exóticas invasoras, elas perdem funções ecossistêmicas e a flexibilidade de adaptação às mudanças climáticas”, explica a doutora em Conservação da Natureza pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Sílvia Ziller descendo de rapel para controlar plantas invasoras em paredões rochosos de praia em Florianópolis (SC). Foto: Instituto Hórus / Divulgação.

“Ambientes protegidos são mais resilientes às mudanças do clima, pois se recuperam mais rápido dos impactos que sofrem”, destacou na reportagem Não olhe para o mar Ana Paula Prates, hoje diretora de Oceano e Gestão Costeira no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Além de fragilizar as restingas, as espécies exóticas parecem ganhar terreno justamente pelo aumento da temperatura média do planeta, conta Michele Dechoum, professora do departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“Na última década, espécies se expandiram muito na Região Sul, numa relação com médias mais altas de temperaturas e de chuvas”, descreve a pesquisadora do Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (LEIMAC), criado em 2019 na UFSC. 

Mais intensa em praias com maior presença humana, a invasão de restingas na verdade é democrática. “O litoral brasileiro todo sofre com esse mesmo problema”, denuncia o biólogo Juliano Fabricante, professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Ele e outros pesquisadores listaram mais de 40 espécies de plantas invasoras em praias do Rio Grande do Norte à Bahia. A identificação começou em 2015, quando Fabricante usava parte das férias para fotografar esses impactos durante longas caminhadas.

“Os ambientes alterados pelas plantas estranhas às restingas são inóspitos às espécies nativas, deixando nichos vagos às exóticas invasoras”, adianta o pós-doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). 

Biodiversidade banida

As invasões biológicas são uma das grandes ameaças à biodiversidade, além da agropecuária, exploração direta de recursos naturais, crise do clima e poluição, aponta a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, sigla em Inglês).

Essa realidade se reflete nas restingas brasileiras, onde inúmeros tipos de plantas exóticas encontram condições ideais para ocupar espaços e até se “naturalizar”, se estabelecer e proliferar desde onde foram introduzidas, eliminando ou expulsando a flora e a fauna originais. 

“No meio natural há dezenas ou centenas de espécies convivendo, contra uma ou duas invasoras que tomam conta das restingas”, explica Sílvia Ziller, também fundadora do Instituto Hórus. Situações exemplares não faltam. 

No nordeste de Florianópolis, o raro lagartinho-da-praia (Liolaemus occipitalis) e outras espécies sobrevivem numa antiga área de cultivo de árvores exóticas. Ela foi transformada em 2007 no Parque Estadual do Rio Vermelho, mas as plantas não nativas ainda não foram totalmente removidas.

Um lagartinho-da-praia (Liolaemus occipitalis), exclusivo de praias da Região Sul, Foto: André Ganzarolli Martins / Creative Commons.

Como mostrou tipminer, a ocupação imparável do litoral ameaça extinguir o possível primeiro anfíbio polinizador do mundo. A perereca-de-bromélia (Xenohyla truncata) vive apenas em restingas do estado do Rio de Janeiro.

A polinização de plantas nativas também cai com a chegada de exóticas invasoras. As flores do chorão-das-praias atraem tantas abelhas que a flora  nativa é quase deixada de lado pelos insetos, comprometendo sua reprodução.

Enquanto isso, árvores exóticas como pinus e amendoeiras pontuam grande parte do litoral brasileiro. Ao sombrear as restingas, forçam a troca de suas plantas de baixo porte e que precisam de luz por espécies tolerantes à sombra.

Invasoras de pequeno a grande tamanho até contêm o movimento de dunas e aumentam a biomassa nas restingas, o que soa bem, mas seus resíduos alteram a composição dos solos e afugentam plantas e animais nativos. 

“Isso tudo muda a identidade dos sistemas naturais”, explica Michele Dechoum, do Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (LEIMAC).   

Trocar a flora costumeira por árvores também serve de quebra-vento, o que agrada moradores, mas afeta toda a “máquina natural” e o microclima nas restingas, algo ainda mais importante para pequenos animais.  

“Sempre há certos aspectos positivos, mas os negativos superam quase sempre os primeiros”, pondera Juliano Fabricante, da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Já em variados pontos da costa, plantas ornamentais muito agressivas, como os aspargos e o chorão-da-praia, dão cabo das plantas nativas e destroem as moradas e alimentos da fauna silvestre.  

“Muitas pessoas acham que é bom colocar essas plantas porque ‘seguram’ a areia, quando na verdade também eliminam a vegetação natural e empobrecem as restingas”, lembra Sílvia Ziller, do Instituto Hórus.

Formando arbustos com até 1 metro de diâmetro, resistentes à seca e com raízes muito firmes, os aspargos são controlados até com maquinário e venenos, práticas que oferecem mais riscos às espécies nativas. 

Nativas desvalorizadas

Frutos e sementes de plantas exóticas invasoras podem ser espalhadas pelo vento, pela água, por pássaros e morcegos, mas a mão humana é o grande estopim das invasões biológicas globais. 

O mercado de floriculturas é um poderoso disseminador de espécies, por meio de lojas físicas ou eletrônicas. Plantas e sementes de qualquer ponto do planeta são compradas livremente. Um perigoso e lucrativo negócio.

“Mais da metade das plantas invasoras no Brasil são ornamentais. Em todo o mundo, não há controle nenhum sobre esse setor”, reclama Sílvia Ziller, do Instituto Hórus.

Outras plantas invasoras foram trazidas como alimentos, como a jaqueira e a mangueira, para formar pastos, como a braquiária e o capim-gordura, ou servem para silvicultura e arborização urbana, como o pinus e a amendoeira.

“Há uma variedade de plantas nativas que substituiria boa parte das exóticas hoje usadas. Falta mais comprometimento com a nossa biodiversidade”, constata Juliano Fabricante, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 

Natural em regiões costeiras na Malásia, a amendoeira (Terminalia catappa) está disseminada em praias e cidades brasileiras. Foto: Duda Menegassi

Controlar é preciso

A salada biológica provocada por espécies exóticas invasoras pode gerar danos irreparáveis à biodiversidade nativa e a serviços ambientais cruciais à sociedade humana. Enquanto isso, os prejuízos econômicos se acumulam.

Em nível global, as perdas com fatores que vão de extinções de espécies a impactos na saúde humana já somam US$ 423 bilhões anuais, ou cerca de RS 2 trilhões, revelou tipminer em setembro. 

Na Europa, mais de 116 bilhões de Euros, por volta de R$ 617 bilhões, foram gastos nas últimas seis décadas tentando erradicar espécies ameaçadoras ao equilíbrio ecológico, mostrou um estudo na revista Neobiota.

Mas além de contabilizar perdas e danos, é preciso agir. Um palco mundial de invasões biológicas, até mesmo por espécies da América do Sul, a Austrália tem políticas e ações do nível federal ao local contra espécies invasoras.

“Quase toda a população sabe que há problema com exóticas invasoras”, conta o biólogo e geólogo australiano Christopher Graves, que ajuda a restaurar ambientes desde o ano 2000, inclusive no Brasil. 

No país da Oceania, legislação e normativas federais listam espécies mínimas e direcionam recursos e ações estaduais e municipais contra plantas e animais que prejudicam economias, a agricultura, o turismo e os ambientes naturais. 

Os diferentes níveis de governo podem refinar suas listas e leis para espécies invasoras, os métodos de controle e os recursos disponíveis, que tendem a cair a partir do primeiro ano de combate. 

“Essas ações têm que ser permanentes para não perder investimentos com a volta das espécies invasoras. A falta de continuidade é sempre um grande problema”, destaca Graves. Um sintoma típico do Brasil.

O australiano Christopher Graves combatendo a piteira (Furcraea foetida), uma invasora na Praia Mole, em Santa Catarina. Foto: Christopher Graves / Arquivo Pessoal

Poucas restingas e outras áreas naturais resistiram à ocupação humana no litoral fluminense. O que resta enfrenta urbanização, especulação imobiliária e invasões biológicas. Ao menos na capital, plantas exóticas são removidas.

Quase 40 mil m2 de restingas e mangues são restaurados após a eliminação de “florestas de leucenas” no Morro do Pasmado e na Barra da Tijuca, diz a Secretaria de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro (RJ).

“Aleucena prospera em qualquer ambiente, assumindo diferentes portes conforme as facilidades dos terrenos que encontra”, destaca a assessoria de imprensa do órgão municipal.

Essa árvore centro-americana chegou à capital nos anos 1980, mas as restingas cariocas são invadidas desde o início do Século XX, graças ao paisagismo e arborização urbanos colonizados. 

Esses cenários tornam a falta de políticas e de ações continuadas contra invasões biológicas uma pedra no sapato da conservação no Brasil. Esforços pontuais são como enxugar gelo. Ignorar o problema infla prejuízos.

Há uma estratégia nacional contra invasoras e estados como no Sul, Sudeste e Nordeste têm leis para conter a dispersão de plantas exóticas, mas isso ainda tem poucos efeitos práticos, diz Sílvia Ziller, do Instituto Hórus.

“É preciso incidir na gestão e comercialização dessas espécies, por exemplo com licenciamento e controle de floriculturas, mas é difícil vencer interesses econômicos de curto prazo”, destaca a especialista.

Também falta informação para compradores. “As espécies que escolhemos podem ameaçar a natureza ao lado de nossa casa. Cada um pode ajudar”, avalia Michele Dechoum, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Além de melhorar questões políticas e comerciais, é urgente arregaçar as mangas e recuperar restingas ao longo do litoral brasileiro, como barreiras naturais protetoras e abrigos de biodiversidade. 

“Não será rápido ou simples, mas é preciso dar vez às espécies nativas, botar a mão na massa para manejar plantas exóticas invasoras com forças públicas, privadas e voluntárias”, prega Michele Dechoum.

Restinga preservada no Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC). Foto: Rafael Barbizan Sühs
  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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Comentários1

  1. Celso Juniusdiz:

    Excelente matéria. Parabéns