Reportagens

Recursos chineses podem ampliar impactos em estados pantaneiros

A reaproximação Brasil-China pode azeitar investimentos, inclusive em usinas no rio Cuiabá. Os aportes já somam ao menos R$ 38 bilhões

Aldem Bourscheit·
30 de março de 2023

Os estados que abrigam o Pantanal receberam investimentos chineses bilionários nos últimos 15 anos, especialmente em infraestrutura. A reaproximação diplomática entre Brasil e China pode engrossar as aplicações e os impactos socioambientais a elas associados.

Os aportes chineses em projetos nos territórios do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul somaram US$ 7,28 bilhões de 2007 a 2021. Em valores atuais, são quase R$ 38 bilhões. O balanço é do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), a pedido de PG tiger.

A grande maioria (93%) dos gastos foi em energia, como hidrelétricas e linhas de transmissão. Uma fatia bem menor (7%) chegou à agropecuária. Os biomas Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica também estão presentes nos dois estados (mapa abaixo).

“Os investimentos concentrados no setor elétrico têm presença marcante de [empresas estatais] gigantes chinesas”, conta Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC. 

Uma delas é a State Grid, que tem 16 mil quilômetros (km) de linhas para transmissão no Brasil. Parte delas cruza os estados pantaneiros. Uma de suas subsidiárias detém o linhão da usina de Belo Monte, do Pará ao Sudeste. 

A China Three Gorges gera energia hidrelétrica e eólica em 11 estados. Os projetos incluem as usinas de São Manoel, no rio Teles Pires, entre Pará e Mato Grosso, e de Jupiá, no rio Paraná, entre Mato Grosso do Sul e São Paulo. 

A maioria dos ativos internacionais da China Three Gorges e da State Grid está no Brasil, com fatias respectivamente de 60% e de 48%, diz o CEBC. 

A chinesa COFCO negocia, armazena, processa e transporta commodities como soja, algodão, açúcar e café, produzidas inclusive nos estados pantaneiros. Ela integra a COFCO Corporation, cuja receita global é de quase R$ 250 bilhões.

O grupo Hunan Dakang tem negócios semelhantes aos da COFCO no Brasil. É dele a companhia de grãos, biodiesel, fertilizantes e agrotóxicos Fiagril, em Mato Grosso. O Hunan também busca janelas para investir em pecuária, levantou PG tiger.

Em Maracaju (MS), a chinesa BBCA planejava produzir itens à base de milho, como amido, forragem, rações e plástico biodegradável, mas o projeto teria sido abandonado pela empresa, conforme nota da prefeitura municipal.

Adentrando o bioma, a China Energy Engineering Group planeja investir em seis hidrelétricas no rio Cuiabá (MT). O monitoramento é da ONG Ecologia e Ação (Ecoa). O manancial é um dos principais do Pantanal. 

Conforme a entidade civil, os aportes foram firmados em Macau (China), em julho de 2021. Os valores iniciais previstos são de quase R$ 2 bilhões e incluem um linhão de 130 km.

“Temo que os aportes chineses avancem sobre a parte alta da bacia do Pantanal, na esteira de outros projetos [de infraestrutura]”, ressalta Alcides de Faria, diretor-executivo da Ecoa. 

A ONG avalia que a China pode apoiar usinas no rio Cabaçal (MT). Projetos logísticos em Mato Grosso igualmente interessam ao país, como uma ferrovia para exportar commodities pelo Pacífico.

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul abrigam todo o Pantanal, além de partes da Mata Atlântica, do Cerrado e da Amazônia. Arte: Gabriela Güllich

Reaperto de mãos

O Brasil recebeu metade dos aportes chineses na América do Sul nas últimas duas décadas. Os investimentos podem ser reforçados pela reaproximação Brasil-China promovida pelo governo Lula, mas o foco deve seguir no setor de energia.

“Os aportes em eletricidade têm perfil de longo prazo e demandam constante investimento, por exemplo, na manutenção ou modernização de ativos”, explica Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC).

O predomínio setorial chinês vem da compra e associação a empresas brasileiras para vencer leilões do setor elétrico. O país aproveitou a queda de aportes internos e externos para consolidar globalmente suas empresas, analisa Maria Elena Rodriguez, do BRICS Policy Center.

“A queda de investimentos desde a crise financeira internacional de 2008 foi acentuada pela Lava Jato, abrindo mercados externos às companhias chinesas”, descreve a pesquisadora. 

O apetite asiático pode ampliar aplicações em transportes rodoviário, ferroviário e fluvial, em inteligência artificial, comunicação e automação, além de no agronegócio, como em infraestruturas logísticas e para armazenagem. 

“Os estados pantaneiros compram equipamentos e insumos da China, como agrotóxicos, à qual vendem boa parte da sua produção de grãos e carnes”, lembra Alcides de Faria, diretor-executivo da ONG Ecologia e Ação (Ecoa).

Aportes e negócios foram pautas fortes da recente visita de governistas e empresários daqui ao país asiático. A comitiva teve uma centena de representantes apenas do agro. “Nossa exportação de produtos primários vai quase toda pra China”, lembra Maria Rodriguez, do BRICS Policy Center.

Pelas negociações passa a batata quente da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Outro grande parceiro comercial, os Estados Unidos esperam que o Brasil se posicione contra o conflito. Mas o país deve se manter neutro e assegurar boas relações com a China, próxima do governo Vladimir Putin.

“A posição autônoma do Brasil me parece correta, pois o país é importante no entorno regional e tem peso econômico em grandes mercados internacionais, como o agrícola e o energético”, avalia Cariello, do CEBC.

A expectativa de aportes ao país cresce com Dilma Rousseff na presidência do Banco dos BRICS, sigla de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Baseada em Xangai (China), a instituição já investiu quase US$ 33 bilhões numa centena de projetos no bloco, sobretudo de caráter sustentável. 

O apoio chinês a iniciativas como agropecuária de baixo carbono pode ocorrer também via Banco dos BRICS. “Mas é imprescindível que sejam apresentados projetos exequíveis pelo empresariado”, arremata Cariello. 

Na reaproximação Brasil-China também deveria ser negociada a exportação de itens com maior valor agregado e menor impacto socioambiental, além de ampliar a transferência de tecnologias desde o país asiático, prega Maria Elena Rodriguez, do BRICS Policy Center. 

“Não podemos seguir vendendo apenas farelo de soja. Exportar produtos processados e com maior valor agregado ajudará o país a sair do lugar em que nos colocaram, de mero monoexportador”, ressalta a pesquisadora.

Grãos e farelo de soja são dos principais itens exportados do Brasil à China. Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

Impactos em voga

Os prejuízos ambientais e sociais de projetos com recursos chineses dependem das leis e capacidade de fiscalização de cada país alvo. Ao mesmo tempo, a própria China não atende a diretrizes internas e internacionais de sustentabilidade nos investimentos de suas estatais.

“O país não monitora amplamente a atuação de suas empresas. Há muitos projetos prejudicando comunidades indígenas e tradicionais sem consulta prévia”, destaca Elena Rodriguez, do BRICS Policy Center.

A China é parte da Organização Internacional do Trabalho desde 2001, mas não ratificou sua Convenção 169. Ela prevê que povos indígenas e tradicionais tenham uma “consulta prévia e informada” sobre obras que afetem suas vidas.

Para Alcides de Faria, da Ecoa, proteger os ambientes naturais do país garantirá água e alimentos à população, além de conservar a biodiversidade e o clima. “No caso do Pantanal, trata-se de proteger uma parte única e de alto valor ambiental, econômico e social do Brasil, Bolívia e Paraguai”, lembra. 

Enquanto isso não ocorre, crescem os prejuízos socioambientais ligados a investimentos chineses em nove países da América Latina, mostra um relatório do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Organização das Nações Unidas (ONU).

Os autores do trabalho ressaltam a falta de esforços dos investidores chineses para evitar impactos socioambientais na região.

Os projetos de infraestrutura, geração de energia, mineração, exploração de petróleo e gás atingem nove países da região. Do Brasil, a hidrelétrica de São Manoel é listada por impactos em peixes migratórios no fluxo das águas do rio Teles Pires, um afluente dos rios Tapajós e Amazonas.

Em 2018, o Ministério Público Federal (MPF) pediu a suspensão das obras da usina por descumprir o licenciamento ambiental e por prejudicar aldeias indígenas, como dos povos Kayabi, Apiaká e Munduruku. Todavia, o projeto foi finalizado.

“O Brasil ainda tem um núcleo legislativo preservado, mas muitas normas e leis [socioambientais] foram flexibilizadas nos últimos anos”, lembra Elena Rodriguez, do BRICS Policy Center e uma das autoras do estudo.

Para Alcides de Faria, da Ecoa, esse cenário perigoso para os direitos ambientais e sociais brasileiros pode ser revertido com o fortalecimento da democracia e das instituições públicas brasileiras. 

“O prometido por Lula na campanha eleitoral e na COP27 [do Clima, no Egito], além da nomeação de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, indicam novos horizontes à conservação no Brasil e no Pantanal”, avalia.

Obras da hidrelétrica de São Manoel, entre o Pará e Mato Grosso. Foto: CTG Brasil/Facebook
  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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Comentários1

  1. Joao Pinheirodiz:

    Nós Brasileiros não devemos temer os aportes de capital chinês. Podem ser controlados por agências reguladoras honestas, que infelizmente não temos no Pais. As nossas câmeras reguladoras do comércio internacional são comandadas por deputados incapazes nomeados pelo governo. EEUU e Europa aceitam investimentos e querem investimentos chineses. Eles tem agencias reguladoras honestas e fiscalizadas. O Brasil não pode desprezar este dinheiro. BASTA CONTROLAR.