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Nova espécie de louva-a-deus é descrita na Amazônia matogrossense

Pesquisadores acreditam que o louva-a-deus-do-cristalino vive no dossel da Floresta Amazônica, restrito a áreas bem preservadas cada vez menores em pleno Arco do Desmatamento

Duda Menegassi·
22 de maio de 2023

Assim que caía a noite, o pesquisador Leo Lanna e o designer Lucas Fiat, saíam com lanternas e câmeras em punho em jornadas que duravam horas seguidas investigando o chão e revirando o folhiço atrás de louva-a-deus. A rotina, quase que diária, foi repetida ao longo de dois meses na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Cristalino, em Mato Grosso. Auxiliada por duas armadilhas de luz não-letais, a busca, promovida pelo Projeto Mantis, resultou na recém-publicada descoberta de uma espécie: o louva-a-deus-do-cristalino (Microphotina cristalino) e pelo menos outras duas espécies, que ainda estão em processo de descrição.

A nova espécie foi batizada em referência ao nome da reserva e do principal rio da região. Com um corpo verde translúcido e asas transparentes que parece combinar, indiretamente, com seu nome, o louva-a-deus-do-cristalino possui um formato esguio, com uma cabeça comprida adornada com antenas vermelhas. A descrição foi publicada em artigo no periódico científico European Journal of Taxonomy, na última sexta-feira (19), com autoria de cinco pesquisadores. 

A descoberta foi feita em 2021, através das coletas feitas pela dupla durante a expedição “Austral: Mantis da Amazônia”, promovida pelo Projeto Mantis, que passou dois meses na RPPN. Realizada com apoio da Fundação Ecológica Cristalino e do Greenpeace Brasil, o campo tinha como objetivo documentar a diversidade de louva-a-deus da área protegida, até então desconhecida.

“Nós realizamos expedições em diversos locais do Brasil, e a Amazônia do Mato Grosso sem dúvidas foi a mais rica em diversidade que já vimos. E isso se refletiu nos louva-a-deus: encontramos mais de 30 espécies, em quantidades que nunca imaginamos ver”, conta o pesquisador Leo Lanna, do Projeto Mantis. A iniciativa foi criada em 2015 para pesquisa, conservação e documentação de vida selvagem, voltada para sensibilização e divulgação científica dos louva-a-deus.

O corpo translúcido do louva-a-deus parece combinar com o nome Cristalino. Foto: Léo Lanna/Projeto Mantis

Além das buscas pela floresta, Lucas e Leo deixavam duas armadilhas de luz não-letais – um pano branco com uma luz forte que atrai insetos voadores noturnos – perto do alojamento. Foi nessas armadilhas que os dois conseguiram capturar os dois machos adultos que permitiram a descrição do louva-a-deus-do-cristalino. Não se conhecem as fêmeas, jovens ou os ovos da nova espécie.

“Mesmo com dois meses de buscas na floresta, eles só apareceram na armadilha de luz”, lembra Lucas Fiat, do Projeto Mantis. A hipótese é de que esta seja uma espécie de dossel, que vive na copa das árvores e raramente desce às partes baixas da floresta. A copa das árvores é quase um ecossistema à parte, especialmente em florestas densas como a Amazônia e ainda não existem tecnologias eficientes para pesquisar a fauna no dossel, o que faz deles um dos ecossistemas menos conhecidos pela ciência. Ou seja, ainda há muitos mistérios a serem respondidos sobre a nova espécie. 

Armadilha de luz através da qual os pesquisadores conseguiram coletar a nova espécie de louva-a-deus. Foto: Léo Lanna/Projeto Mantis

Enquanto as respostas não vêm, os pesquisadores alertam para a conservação do louva-a-deus. Justamente por viver nas partes altas, o inseto do cristalino provavelmente depende de florestas preservadas. A RPPN Cristalino, situada no norte de Mato Grosso, apesar de ser um área bem protegida de cerca de 7 mil hectares, está inserida em pleno Arco do Desmatamento. Na mesma região, o vizinho Parque Estadual do Cristalino II sofre com um processo judicial que ameaça a existência da unidade de conservação, cujo futuro é incerto.

No artigo, os pesquisadores chamam a atenção para o ritmo acelerado do desmatamento em Mato Grosso nos últimos anos. “Uma vez que a floresta amazônica pode levar décadas para se regenerar, uma espécie que aparentemente habita dossel como M. cristalino já perdeu efetivamente uma parte significativa de seu habitat no estado. Além da perda de habitat e fragmentação da população, a caça furtiva representa uma questão de conservação emergente para louva-a-deus. Esses insetos fazem parte do crescente mercado internacional (legal e ilegal) de animais invertebrados exóticos. Embora as espécies brasileiras raramente sejam comercializadas, elas permanecem vulneráveis, pois o desmatamento cria novas oportunidades para os caçadores furtivos acessarem espécies de áreas anteriormente inacessíveis, incluindo reservas naturais”, destacam.

O Brasil tem a maior diversidade de louva-a-deus do mundo. Ao todo são mais de 250 espécies distribuídas por todos os biomas brasileiros.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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