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A vida – e os amores – de um bicudinho-do-brejo ancião

Monitorado desde 2007, Rosaldo é o bicudinho-do-brejo mais velho já registrado e tem ajudado os pesquisadores a entender como garantir a conservação da espécie

Duda Menegassi·
3 de janeiro de 2024

Num pequeno ninho na ilha do Jundiaquara, em Guaratuba, no sul do Paraná, vive um pássaro singular. Rosaldo é um bicudinho-do-brejo, espécie que ocorre apenas nos brejos salinos e estuários da região sul. Com 16 anos e três meses, bateu o recorde de idade pra espécie, que costuma viver em média 5 anos. Conhecido pelo nome, Rosaldo representa também o recorde de tempo de monitoramento de um indivíduo de bicudinho na natureza, um feito possível graças à dedicação da equipe do Projeto Bicudinho-do-Brejo que o acompanha desde 2007. 

O bicudinho-do-brejo (Formicivora acutirostris) não mede mais do que 15 centímetros, o tamanho de uma caneta. Nas fêmeas, o peito rajado de manchas pretas e brancas, em contraste com o dorso castanho, chama atenção logo de cara. Já no macho, o peitoral é todo cinza escuro. Nas asas pretas do macho, pontos brancos desenham estampas únicas em cada um. O bico, alongado e fino, é a arma ideal para ir atrás das formigas, seu banquete favorito.  

Rosaldo possui duas anilhas que ajudam na identificação. E assim, em meio à vegetação herbácea do brejo que protege seu ninho, a equipe do projeto o observa todos os meses. Nesses 16 anos de monitoramento, Rosaldo ensinou muitos aos pesquisadores. “Comparamos as estratégias reprodutivas do Rosaldo ‘vovô’ com o tempo em que ele era jovem, bem como com seus ‘vizinhos’ mais novos. A proposta é verificar se existe capacidade de aprendizado com a experiência, o que diminuiria a preocupação com a sobrevivência da espécie em consequência da mudança climática”, explica a coordenadora do projeto, Giovana Sandretti-Silva.

A crise climática e os impactos do aumento do nível do mar no habitat do bicudinho-do-brejo, restrito a essas áreas úmidas salinas do litoral, é uma das principais ameaças à conservação da espécie, atualmente avaliada nacionalmente como Vulnerável ao risco de extinção.

O vovô Rosaldo tem ensinado muito aos pesquisadores. Foto: Gabriel Marchi

Acompanhado de perto por toda sua vida, Rosaldo foi cuidado e ensinado por seu pai até os 54 dias de idade, quando partiu para suas próprias aventuras. Os bicudinhos-do-brejo vivem em casais, com uniões que podem durar a vida toda, e os dois se revezam nos cuidados com os filhotes. Aos sete meses, Rosaldo encontrou uma parceira e foi morar no território em que vive até hoje. Esse primeiro “casamento” durou quatro anos e gerou três filhotes. Sua companheira morreu no início de 2012. 

Rosaldo encontrou uma nova parceira alguns meses depois. Com a segunda “esposa”, com quem ficou por mais de nove anos, deu origem a mais oito filhotes. Em 2021, entretanto, a fêmea, que já completava 10 anos, sumiu. Inabalável, o pequeno pássaro – que já é pai de 11 bicudinhos – reencontrou o amor no mesmo ano, ainda sem descendentes – “apesar das tentativas constantes”, conta a equipe do projeto.

A equipe do Projeto Bicudinho-do-Brejo realizou duas estimativas populacionais este ano, com dois métodos distintos. O cálculo mais otimista, que considera que todo ambiente na área de distribuição da espécie estaria em condições adequadas para abrigar indivíduos de bicudinhos-do-brejo, aponta 6.200 indivíduos na natureza. Ao levar em conta uma modelagem da dinâmica populacional da espécie, entretanto, estima-se que há, na verdade, menos de 1.000 bicudinhos na natureza. 

Os pesquisadores explicam que para sustentar um casal de bicudinhos, o território pode ter desde apenas 0,25 hectare – caso todas as condições sejam extremamente favoráveis – até 3,2 hectares, em locais com condições mais adversas para espécie.

A equipe do Projeto Bicudinho-do-Brejo mantém o monitoramento de Rosaldo desde 2007. Foto: Gabriel Marchi

Para apoiar a conservação da espécie, foi firmada uma cooperação técnica e científica entre as equipes do do Projeto Bicudinho-do-brejo e do Zoológico de São Paulo. A primeira etapa consiste na manutenção das plantas do ambiente natural e o oferecimento de uma dieta balanceada para a espécie, além do conhecimento no manejo das aves. Eventualmente, se necessário, após análise dos especialistas e com as autorizações necessárias, o Zoo poderá atuar na conservação ex situ (fora do ambiente natural) da espécie a fim de manter uma população de segurança em cativeiro. 

“Serão 10 anos de trabalho conjunto com o objetivo de aumentar a quantidade de ambientes de vida do bicudinho-do-brejo e ajudar para que mais filhotes nasçam e sobrevivam”, esclarece o coordenador do projeto Marcos Bornschein, professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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